Antes que a vida passe

23 abr

Esse artigo trata de uma reflexão sobre os vários caminhos que surgem diante da vida das pessoas, e como essa escolha pode influenciar o curso de uma vida inteira.

O ser humano é um ser de falta, que está sempre em busca de algo. Ele nunca está completo, e almeja alguma coisa ou possui um outro objetivo para que se sinta, no futuro, feliz e realizado.

Essa característica nos leva a dois pontos contrastantes: um positivo e outro negativo. Por um lado, a busca incessante por felicidade é um incentivo ao homem para ir sempre além, não acomodar e querer cada vez mais. Já, por outro lado, o homem nunca se sentirá feliz pois nunca se sentirá completo, e estará sempre angustiado por ainda não ter conseguido atingir o que ele acredita ser o ápice de sua felicidade; e assim, não perceberá o que alcançou e nunca valorizará o que tem.

O grande problema desse conflito é que precisamos conviver com ele, e saber dosar a exata medida para que esse impulso natural não atropele a realidade, e acabe fazendo com que o homem seja um eterno frustrado.

Bem, atualmente, sabemos que as pessoas associam a felicidade aos grandes projetos de vida, que garantam uma estabilidade financeira para si e para seus familiares, e assim, fazem desse projeto uma meta a ser alcançada, acreditando ser essa, a felicidade plena.

Ocorre que, para a concretização desse projeto, vislumbram-se dois caminhos: um é rápido e fácil, e o outro, é prolongado e, por vezes se mostra, bastante árduo.

Alguns tentarão pelo caminho mais rápido e fácil, e essa será uma escolha potencialmente perigosa pois sabemos que não há recompensas sem trabalho e disciplina.

Essa escolha, na maior parte das vezes, envolve a criminalidade e atividades ilícitas, que, infelizmente sabemos, possuem retorno alto e rápido.

Entretanto, esse caminho gera uma estrutura construída em alicerces frágeis, que desmoronarão muito rapidamente, seja pela conduta do Estado, que reprime os que transgridem as leis, seja pelo próprio desenvolvimento da atividade ilícita, que poderá ocasionar a morte dos envolvidos.

Muitos, é bem verdade, nem chegam a optar por esse caminho, mas são levados pela falta de oportunidades e pela má distribuição de renda, que, no Brasil, atualmente, é um problema preocupante. Contudo, apesar desse outro aspecto, esse caminho não distingue a culpa e as razões dos envolvidos. E só há um destino, que impõe implacável ao final do percurso.

O outro caminho, difícil e mais longo, é o que se chama, propriamente, de projeto de vida. Esse caminho exige a montagem de um extenso cronograma, desenvolvido durante anos, para que a pessoa se prepare para alcançar aquilo que se propôs a atingir. Envolve estudo, raciocínio e dedicação da pessoa.

E, diferentemente do caminho rápido e fácil, este outro caminho apresenta três formas para percorrê-lo.

A primeira delas é uma maneira descomprometida, daquele que não efetivamente quis seguir esse caminho, mas foi induzido a percorrê-lo, seja pela cultura ou por imposição de terceiros, normalmente, os pais.

Pela falta de objetivo próprio, o induzido não chegará em lugar nenhum e não conseguirá atingir as metas, pois ele não terá a força de vontade necessária para isso, desperdiçará o tempo e não se empenhará.

E também não se importará com as conseqüências de seu descaso pois ninguém evolui sem realmente querer, e no caso, essa pessoa não quer nada a mais da sua vida, tornando-se, assim, mero espectador do tempo, aguardando, tranquilamente, que as coisas, por si só, aconteçam.

A segunda maneira é comprometida, oriunda de uma pessoa que, realmente, quer obter um resultado. Assim, ela se preparará e se empenhará para atingir seu objetivo.

Com a dedicação e a força de vontade, a pessoa conseguirá estruturar seu futuro e organizar a sua vida. Não será um feito majestoso, mas, uma vida essencialmente normal. Não haverá vultosas realizações, nem conquistas inéditas. O final dessa forma de trilhar o caminho difícil e mais longo é a estruturação de uma vida razoavelmente tranqüila.

A terceira e última forma de percorrer o caminho é a excessivamente comprometida. Nesta, a pessoa não se contenta em ser bom, mas almeja ser o melhor, o primeiro, o único.

E para isso, ela irá se dedicar ao máximo, se esforçar além dos limites, vencer a barreira do tempo e do cansaço para se tornar o maior destaque dentro da área que pretendeu seguir.

O excessivamente comprometido terá um sucesso sem tamanho, toda a riqueza e os luxos um dia sonhados. Irá, também, ter responsabilidades mil, condizentes com um “cargo” de tanta importância. Será uma figura notória, de conquistas e vitórias invejáveis. A sua vida, com certeza, terá o mais elevado nível de prestígio.

Analisando as maneiras se trilhar o caminho difícil e mais longo, temos a impressão de que a terceira é a mais acertada, e, na verdade queríamos ser excessivamente comprometidos para os sermos os melhores e gozarmos de uma vida privilegiada.

Contudo algumas considerações deverão ser feitas.

Quando chegar ao final dessa longa caminhada, a pergunta que se fará é: terá valido a pena? Será que todo o esforço foi realmente recompensado?

Certamente baterá a dúvida se todo o sucesso, o prestígio, o dinheiro e a alta posição social compensam, se, para essa conquista, foi necessário que a pessoa se esquecesse de viver, abdicando de momentos que não voltam mais.

Nesse intervalo de indagações e dúvidas, aquele que atingiu o sucesso pleno se olhará no espelho e perceberá que o tempo passou e que ele envelheceu, que não teve tempo para fazer nada por si mesmo, não cuidou da sua saúde, do seu corpo e nem da sua aparência.

Olhará em volta, e perceberá que seu companheiro também envelheceu, e que, estranhamente, não sabe como fluiu todo esse tempo. Terá a consciência de que não esteve presente nos momentos mais importantes, que não deu a força necessária nas situações mais difíceis, que não foi companheiro, que não deu atenção nem amor. E hoje percebe o quanto está alheio a sua relação, que o sentimento foi esvaziado, e que se a união persiste é pela força do costume, pois nada foi feito de sua parte para cultivar o sentimento.

Olhará para os seus pais, que estão mais velhos ainda, ou que, às vezes, nem se encontram mais aqui e constatará que não deu atenção e o carinho que eles mereciam, que não teve tempo para ouvir os seus conselhos, que hoje fazem tanta falta, que não disse, embora sentisse, o quanto os amava. E entende que, agora, já não há mais palavras a serem ditas para encobrir tamanha omissão.

Olhará ainda para os seus filhos, e não entenderá como eles cresceram tão rapidamente. Não entenderá onde estava quando eles ainda eram bem pequenos e que ainda precisavam do seu apoio. Verificará que não esteve presente quando eles ainda faziam questão de sua presença nas apresentações da escola e nos campeonatos esportivos, e que estava ocupado demais tentando garantir o futuro deles, quando era interrompido por alguma brincadeira infantil. Saberá que nunca escutou os seus medos e angústias, e que é um pouco tarde para exigir deles confiança. Na verdade, deixou que se tornasse um estranho para eles.

Em lado totalmente oposto, perceberá também, que não há mais objetivo a ser alcançado, e que nenhum sentido resta para seguir em frente. O dinheiro, que antes representava solução de todos os problemas, hoje não lhe traz tantos benefícios porque não há mais aquela vontade de ter alguma coisa. O dinheiro não poderá comprar alguns anos de volta.

E de repente perceberá o equívoco de ter elaborado tão mal seu projeto de vida, e como pôde deixar a vida passar sem tê-la vivido intensamente. Entenderá, agora, que todo o sucesso, o prestígio e o luxo que teve e que pôde proporcionar aos seus, não garantem a felicidade plena, e que não foram capazes de suprir a sua falta. No fim dessa caminhada constatará que deixou de viver aqueles momentos tão simples e tão especiais e hoje não se sente vitorioso, e sabe que, no íntimo, se tornou uma pessoa fria, distante, nervosa, impaciente e estressada.

Nem mesmo o pensamento de que essa escolha foi tomada justamente para garantir uma vida perfeita para você e os seus irá confortá-lo, e, exatamente nesse momento, terá certeza de que essa escolha não foi a mais acertada.

Então o que fazer? Como proceder? O que buscar?

Bem, infelizmente não há uma fórmula miraculosa que garanta a felicidade. E por isso é muito importante que a pessoa saiba que a felicidade não funciona como uma meta que, um dia, será atingida.

A felicidade está em cada momento que vivemos, em cada dia que passamos e que temos uma boa sensação, está na convivência próxima com os familiares e amigos que gostamos, num sorriso, numa viagem, numa festa, numa noite, num dia comum.

Não poderíamos deixar de falar que a felicidade também se dá em virtude da conquista pessoal e da realização profissional. Mas estejamos atentos para que as nossas vidas não sejam relegadas a um segundo plano por termos colocado o trabalho na frente de tudo, inclusive de nós mesmos, ainda que de forma inconsciente.

Como a tendência da própria natureza é busca do equilíbrio, com as pessoas não poderia ser diferente. O equilíbrio é a chave de todo esse mistério. É no equilíbrio que se concentram as maiores virtudes.

O equilíbrio pondera a ausência e a presença, a dedicação profissional e afeto familiar, a impaciência e a calma, a omissão e a atitude, o esforço e recompensa.

Estejamos certos que o que realmente importa é o hoje, e viver intensamente cada dia enquanto ainda estivermos aqui.

E hoje, se alguém me perguntar qual seria a minha escolha, eu diria, sem medo de errar, que optaria pelo caminho difícil e mais longo, mas apenas de forma comprometida. Nesta opção é que o equilíbrio está presente, tornando possível tanto a minha realização pessoal, quanto profissional, não me esquecendo de viver cada dia como se fosse o último.

Às pessoas, somente uma dica: não busquem a felicidade. Sejam felizes, hoje, amanhã e sempre.

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