Você é feliz?

29 abr

Immanuel Kant (1724-1804), o filósofo prussiano que até hoje atormenta os estudantes de Direito com suas reflexões sobre Filosofia do Direito, tinha da felicidade um conceito que dizia: felicidade é a satisfação de todas as nossas inclinações. É claro que uma definição dessas não define absolutamente nada, pois não sabemos quais são as nossas inclinações nem qual a natureza disso (alguém pode estar inclinado olhando um abismo…). E também desconhecemos quais são todas as nossas inclinações. Alguém que tenha inclinação pela bebida certamente ficará feliz quando tiver inclinado o braço e despejado mais um gole na garganta. Isso nos indica que, segundo nosso velho desafeto alemão, esse dipsomaníaco é uma pessoa feliz.

Os dicionários talvez nos ajudem nessa busca desesperada. Nosso Aurélio Buarque de Holanda nos diz que felicidade é o mesmo que contentamento. Já contentamento é um sentimento de prazer, satisfação, alegria.

Na França, o Larousse nos diz que a felicidade (palavra que lá é formada pelas palavras boa + hora) é um estado de completa satisfação, de plenitude. É também alegria e prazer. Resta-nos saber de que tipo de satisfação se alude, pois a desgraça de um desafeto costuma deixar-nos imensamente satisfeitos.

Já o Webster nos ensina que na língua inglesa felicidade é o mesmo que sorte, prazer, alegria, contentamento. Mas o dicionário de Cambridge nos diz que a felicidade é o sentimento de ser feliz. É algo que nos causa prazer ou satisfação.

Curioso é que, para os latinos, a palavra felix, que levou a felicitas, dizia respeito à fertilidade, tanto que Felicitas era a deusa da fertilidade, o que diz com a abundância. Tanto quanto fecundus, que nos deu fecundo, a significar aquele que produz, capaz de reproduzir-se. Essa ligação entre ser feliz e ser produtivo talvez fosse um excelente mote para uma reflexão futura, mesmo porque, como reconheceu o nosso Ataulfo Alves, “eu era feliz e não sabia”, constatação que nos ocorre com frequência, talvez porque, como dizia o economista Stuart Mill, “pergunte a si mesmo se você é feliz e deixará de sê-lo”.

E já que fui buscar os filósofos tornados populares por força da música que fizeram, a dupla Tom e Vinicius (quem escreveu o quê?) não nos dá definições de felicidade, mas nos acena com semelhanças, à moda dos monges budistas: “A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor: brilha tranquila, depois, de leve, oscila, e cai como uma lágrima de amor”. Eles também disseram que “a felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar: voa tão leve, mas tem a vida breve (e) precisa que haja vento sem parar”, esquecendo-se, porém, de nos dizer que vento é esse que deve ser mantido para que nossos momentos felizes não se imobilizem no asfalto, como a tal pluma leve a que eles se referem, mas, ao contrário, continuem a voar, ainda que breve sua vida.

E por falar em felicidade e em vida breve, lembro-me de alguém que viveu quase cem anos, produzindo uma obra exemplar no campo não só da filosofia como, em especial, no campo da ética. Lê-se em sua biografia que Bertrand Arthur William Russell “exerceu sobre o público enorme fascínio, o que decorreu de numerosos fatores. Para além da sua longevidade, há muitas outras facetas que o tornam único. Grande matemático e filósofo, apóstolo da paz e discutida figura política, Bertrand Russell alcançou um enorme prestígio mundial. Era o nonagenário que cativava os mais novos e inspirava os mais velhos; o aristocrata que desprezava a Câmara dos Lordes e se arriscava a ser preso; o anarquista por temperamento que desafiava o poder constituído; o ateu que terçou armas contra o dogma religioso e a moral convencional; o matemático e lógico cujas equações destronaram Euclides; o filósofo que procurou tornar a filosofia acessível aos leigos; finalmente, o galardoado com o Prêmio Nobel da Literatura, cuja elegância de estilo, agudeza de ironia e destreza mental remontam a uma época em que se cultivava a arte de conversar e de escrever cartas.” Excusez du peu, diria ele, afetando modéstia.

No dia 10 de novembro de 1950 foi anunciado que Bertrand Russell tinha ganho o Prêmio Nobel da Literatura em reconhecimento dos numerosos trabalhos em que se defendem os ideais mais elevados da Humanidade. Um mês mais tarde, quando recebeu, em Estocolmo, aquele prêmio, o secretário da Academia Sueca referindo-se ao laureado, proclama-o um dos mais brilhantes protagonistas dos ideais humanos e campeão da liberdade de expressão do mundo ocidental.

Já quase centenário ainda saía às ruas para participar de passeatas de protesto, lutando contra o belicismo, como o fez durante toda sua vida.

Deixou ele um livro intitulado “A Conquista da Felicidade”, escrito em 1930, em cujo introito transcreve, com ironia, palavras do poeta Walt Whitman:

“Creio que eu poderia transformar-me e viver como os animais. Eles são tão calmos e donos de si! Detenho-me para contemplá-los sem parar. Não se atarantam nem se queixam da própria sorte; não passam a noite em claro, remoendo suas culpas, nem me aborrecem falando de suas obrigações para com Deus. Nenhum deles se mostra insatisfeito; nenhum deles se acha dominado pela mania de possuir coisas; nenhum deles fica de joelhos diante de outro, nem diante da recordação de outros da mesma espécie que viveram há milhares de anos. Nenhum deles é respeitável ou desgraçado em todo o amplo mundo.”

Sempre é tempo de tentarmos.

Fonte: Migalhas nº 2.619.

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